“O presidente morreu”. Gritou a mulher de lenço preso por grampos nos cabelos. Ela colocava a cabeça fora da janela de sua casa e berrava: O presidente morreu. Tá morto! Ele morreu. Ela rugia com força, mas não havia ninguém nas ruas. Os pontos de ônibus estavam vazios de automóveis e de gente. O semáforo piscava as suas luzes à toa, sem transeuntes para obedecer às cores vermelha e verde. A farmácia fechada, apenas um cachorro dormia na frente da porta de aço. Ela continuou: Acordem! Acordem! Tá falecido. Ele é só um cadáver decrépito. Logo vai cheirar esgoto. Apareçam! Alguém aí? Então a mulher saiu da janela, andou pela casa e abriu a porta. Na calçada, olhou para os lados. O bairro inerte, quieto e inofensivo. Somente o silêncio era presente. Bateu na porta das casas vizinhas: Ei! Ele é defunto! Ouvi no rádio! Podem sair! Não havia respostas. A igreja de portas altas e de madeira na praça da Matriz. Todos conseguiram ir para lá. Ela tinha certeza de que estavam dentro da igreja, rezando junto ao padre, escondidos das ameaças do presidente. Tinham o direito de saber das boas novas, quando tudo isso poderia acabar. Ela ouviu bem, o rádio repetiu a notícia mais do que três vezes. Era verdade. Com certeza aquilo aconteceu de verdade. Mentira. Não. Não. A verdade aparece com velocidade quando tem que mostrar aos outros a que 90 veio. Sim. Felicidade barra vontade, barra todos bem. Ela caminhou na sua velocidade para lá, imaginando ser recebida com alegria instantânea. O sino tocou. Já era meio-dia. O sinal de que todos estavam normais e rezando terços inteiros em misericórdia ao morto. A faixa verde e amarela livre daquele peito decrépito do doente presidente. Tudo voltaria como anos atrás. Os cães vão correr de novo nas ruas com latidos calmos. A feira venderia carne-seca e macaxeira fresca. A tapioca mais doce com leite condensado e coco. Tomate, coentro, cominho e cebola para o feijão. As conversas nas janelas ao cheiro de café quente. Papo sobre novela e a vida dos outros. Pronta para contar a todos. A igreja cada vez mais perto. Ela sorria fácil quanto mais próxima estava da Matriz. Agora, só faltavam as escadas. Imaginou o sorriso na cara de cada um deles. Ganharia muitos beijos e abraços de todos, sem medos e tristezas. Sem medo de ser feliz! Ele é defunto! Ela colocou o pé direito no primeiro degrau gritando: É ele sim! O presidente morreu! Óbito! Tá morto!

Quando entrou na igreja, todos eram mortos. Corpos em decúbito dorsal. Jovens, senhoras e crianças. O bairro inteiro estava lá. O cheiro do perecimento. Tião, que vendia sorvete no carrinho durante as tardes de todos os dias, Cátia, conhecida como mão de anjo, costureira que tudo sabia e fazia. Maurício, acostumado a chutar a bola no portão de sua casa, não passou dos onze anos de idade. Ivoneide, fazedora de quentinha para os trabalhadores e comerciantes, ainda jovem de corpo e alma. O estudante de medicina, orgulho da mãe. Os bêbados 91 de sempre. Os feirantes. A professora. Ana e Joana, gêmeas que se vestiam iguais e saltitavam na volta da escola. Outros e outros. Ela se sentou ao lado dos corpos, desconsolada. Chorou o estrago da vida enquanto dizia: O presidente está morto. Morto! O sino. Levantou-se do piso frio. Andou pelos torsos das carnes humanas aos berros: Tem alguém! Alguém vivo? Por favor! Desistiu instantes depois com o eco da própria voz e lentamente saiu. Em sua casa, o rádio permanecia ligado e apenas o chiado insistente. Desligou, sentou no sofá e disse: Defunto. Quero ser um morto. Foi até o banheiro, mirou o espelho, viu os cabelos brancos, as olheiras e rugas. Na cozinha, acendeu o fogão e encheu uma chaleira com água fria. Duas colheres de café no filtro de pano. Voltou para a sala, fechou a janela. E depois, xícara e um livro. O dia claro, luminoso e frio lá fora. Mas, então, ela tossiu seguidas vezes, sentiu o coração acelerar no peito em disparo. Cerrou os olhos em dor e seu corpo estremeceu inteiro. O medo, a sede. Tentou alcançar o livro caído. Pereceu.


Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024). Colaborador dos jornais Rascunho, Le Monde Diplomatique Brasil e da revista Philos. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A fotografia que acompanha o conto é das artistas Victoria Ruiz & Helena Cebrian da série Qualquer um pode ser Presidente—Cualquier uno puede ser Presidente.

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